O Comitê Nacional de Prevenção e Combate à Tortura (CNPCT), órgão criado
pela Lei Federal 12.847/2013, vem, através da presente Nota Pública, manifestar profunda
preocupação e contrariedade à intervenção federal militar na área de Segurança Pública no
estado do Rio de Janeiro, determinada pelo Decreto nº 9.288/18, em 16 de fevereiro de
2018. Tal medida, que constitui a primeira intervenção federal após a promulgação da
Constituição Federal de 1988, tende a aprofundar o contexto de instabilidade institucional no
Brasil e acirrar as violações de direitos humanos das populações negras e pobres moradoras
de favelas e periferias do Rio de Janeiro.
O texto do referido Decreto dispõe que o objetivo da intervenção é de pôr
termo a grave comprometimento a ordem pública no Estado do Rio de Janeiro. Causa
estranheza, contudo, que os dados e informações sobre a violência no Estado não assinalem
situação extraordinária que justifique a adoção de medida tão excepcional para o Estado
Federativo. Do mesmo modo, causa extrema preocupação ao CNPCT a nomeação, por meio
do referido Decreto, do General do Exército Walter Souza Braga Netto para o cargo de
interventor, o qual assume as competências do governador de Estado no âmbito da
Segurança Pública, função de natureza eminentemente civil. Como se não bastasse, o art.
2º, § único, do referido Decreto, estabelece que o cargo de Interventor é de natureza militar,
o que viola frontalmente o Texto Constitucional, conforme Nota Técnica Conjunta da
Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC) e da Câmara Criminal do Ministério
Público Federal.
O CNPCT, ainda, repudia as declarações das autoridades federais que
assinalam a possibilidade de ampliação da medida excepcional para outros estados
brasileiros, bem como a tentativa de desresponsabilização das Forças Armadas por
violações de direitos humanos. O supracitado General interventor afirmou, em entrevista
coletiva, no dia de 27 de fevereiro, que o Rio de Janeiro é um laboratório para o Brasil. Já o
Comandante do Exército general Eduardo Villas Bôas, em comunicado oficial datado de 16
de fevereiro, afirmou que a situação do Rio de Janeiro exigirá sacrifício dos poderes
constitucionais, das instituições e, eventualmente, da população. Tais declarações mostram-se
inadmissíveis em face do Estado Democrático de Direito e das normativas internacionais
de direitos humanos.
Igualmente grave mostra-se o fato de que ministros do Governo Federal
tenham concebido a intervenção federal no Rio de Janeiro como uma guerra e trate
moradores de favelas como inimigos do Estado, criminosos em potencial, evidenciando a
criminalização da pobreza e o caráter racista das ações realizadas por esta intervenção. O
Ministro da Justiça, Torquato Jardim, em entrevista ao jornal Correio Braziliense, em 20 de
fevereiro, admitiu que haverá mortes, já que, segundo ele, não há guerra que não seja letal.
Nesta mesma entrevista, Jardim refere-se a adolescentes das favelas cariocas como
combatentes a uma guerra em curso.
O CNPCT reforça sua posição em defesa do Estado Democrático de Direito e
exige que os Poderes Executivos Federais e Estaduais e órgãos do Sistema de Justiça
garantam canais democráticos de fiscalização e controle social das ações das forças de
segurança no contexto da intervenção federal militar no estado do Rio de Janeiro. Reforça, também, a preocupação com o impacto da militarização da segurança pública na ampliação
do superencarceramento e no agravamento das violações já enfrentadas no sistema
prisional, na contramão dos compromissos internacionais assumidos pelo Estado Brasileiro
de adoção de uma política efetiva de desencarceramento e de prevenção e combate à
tortura e outros tratamentos cruéis, desumanos e degradantes.
Brasília, 03 de março de 2018.
COMITÊ NACIONAL DE PREVENÇÃO E COMBATE À TORTURA (CNPCT)
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Datafolha: 73% dos moradores do Rio querem deixar a cidade por medo da violência
02.04.2018 13:57 por Redação Pesquisa ainda mostra que um terço dos cariocas já esteve em meio a um tiroteio e que 92% temem morrer ...
-
A black female politician was gunned down in Rio. Now she’s a global symbol. Demonstrators rally for a second consecutive day las...
-
02/03/2018 Assessoria de Imprensa do Gabinete do Reitor NOTA OFICIAL Universidade Mais de 300 acadêmicos, artista...
-
Especialistas analisam, ponto por ponto, fala de generais sobre intervenção no Rio Para eles, falta detalhamen...
Nenhum comentário:
Postar um comentário