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terça-feira, 3 de abril de 2018

Defensorias do Estado e da União pedem protocolo de ações à intervenção na segurança do Rio

General Walter Braga Netto, interventor na segurança do Rio
General Walter Braga Netto, interventor na segurança do Rio Foto: Ailton de Freitas
A Defensoria Pública do Estado do Rio e a Defensoria Pública da União entregaram, na semana passada, durante uma reunião entre as instituições e o Gabinete de Intervenção Federal, um documento com uma série de exigências e pedidos de informações sobre o protocolo de ações das forças de segurança no Rio. O ofício pede, por exemplo, que mandados judiciais e de prisão sejam cumpridos durante o dia "salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro". Requer também que a intervenção apresente um "plano de redução de danos" para atuar em favelas e reduzir riscos aos moradores dessas áreas. Outra solicitação é que não haja revistas coletivas em casas e que a propriedade individual dos moradores seja respeitada.
— Esse documento foi uma compilação de uma série de medidas e ações que já vínhamos desenvolvendo. Com a intervenção federal a gente elaborou esse ofício para entregar ao interventor, para que pudéssemos dar uma continuidade a essas ações. Estamos vivendo uma crise muito aguda nos níveis de violência, a cada ano eles estão piores. Tentamos estabelecer mais parâmetros e mais controle para a atuação policial. Com a intervenção, nosso proposito é tentar fazer esse diálogo, para pleitearmos mecanismos de controle e prestação de contas — afirma o subdefensor-geral do Rio, Rodrigo Pacheco.
Ao requisitar o respeito ao domicílio de moradores durante a intervenção, a Defensoria cita dados e jurisprudência para embasar esses dois pedidos. Afirma, por exemplo, que no Boletim “Direito à Segurança Pública na Maré”, produzido pela organização “Redes da Maré”, o crime de invasão de domicílio foi a ocorrência mais frequente em 2017 dentre os atendimentos prestados à população da região (28% das ocorrências).
Outro dado citado é uma vitória, na Justiça, que a Defensoria obteve com uma ação que pedia a desocupação de residências particulares na localidade “Largo do Samba”, situada no interior do Complexo de Favelas do Alemão, que vinham sendo utilizada como bases improvisadas por policiais da UPP Nova Brasília.
Em outro trecho do documento, os defensores, citando a Convenção de Genebra e a própria Constituição Brasileira, pedem que a população civil não sofra consequências do uso da força pelas tropas federais. O ofício requer também o respeito a oito diretrizes durante ações de forças de segurança, entre as quais a regulamentação do uso de armas por parte das tropas, a garantia de cuidados médicos e comunicação aos parentes de vítimas em caso de lesões ou mortes por armas de fogo e o uso, sempre que possível, de soluções não violentas para conflitos, em substituição às armas. Os órgãos pedem ainda a garantia de que as forças policiais tenham acesso a equipamentos de autodefesa, como coletes balísticos.
Outra demanda que consta no ofício é a identificação dos agentes em operações policiais, "ainda que por signo numérico ou semelhante". A defensoria argumenta que isso faz com que possam ser denunciados aos órgãos competentes caso cometam arbitrariedades contra a população.
As duas defensorias solicitam também que "a intervenção federal não admita como prática" a devassa de dados telefônicos da população de forma indiscriminada, "como das conversas do Whatsapp, contatos, acesso aos aplicativos e fotos constantes de aparelho de telefonia celular apreendido durante prisões em flagrantes ou buscas pessoais". Os órgãos argumentam que esse método configuraria "violação de dados sem a imprescindível autorização judicial".
PEDIDO DE TRANSPARÊNCIA
Alguns itens presentes no documento falam sobre a necessidade de mais transparência das instituições policiais. Os defensores pedem, por exemplo, a divulgação dos gastos públicos mobilizados pela intervenção federal desde que ela foi decretada, e requisitam ainda informações detalhadas sobre cada operação das forças de segurança realizadas desde o decreto de intervenção, contendo informações como vítimas, apreensões, prisões, objetivo da operação, a munição consumida por cada policial ou agente e a relação de todo armamento utilizado.
As instituições também pedem a elaboração e implementação, "por meio de instrumentos que garantam a participação democrática", de um planejamento de redução de danos "destinado a regular as ações das forças de segurança nos territórios de favelas da cidade do Rio de Janeiro e minimizar os riscos à população".
O temor do órgão era de que houvesse abusos por parte das tropas federais. Até o momento, segundo ele, o que se viu foi cautela no emprego desses agentes e, por outro lado, "descontrole" das forças policiais convencionais.
— Nosso receio era de que o chamado do Exército fosse um recrudescimento da política de militarização, e de confronto armado, de guerra ao crime e às drogas. A notícia de mandados coletivos inicialmente nos colocou uma preocupação. Depois veio um discurso conciliador, principalmente do secretário (de Segurança) Richard Nunes. Mas o que a gente tem verificado, na prática, é um recrudescimento da violência. Esse cenário de descontrole das forças policiais continua sem alteração — observa.

quarta-feira, 28 de março de 2018

Encontro debate a intervenção federal no Rio

Pesquisador defende que violência afeta saúde de moradores das comunidades

- Atualizado às 00h20 de 27/03/2018
Incursão das Forças Armadas  na Vila Kenedy
Incursão das Forças Armadas na Vila Kenedy - Estefan Radovicz / Agência O Dia
Rio - Pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), defensores dos direitos humanos, profissionais da saúde e moradores de comunidades se reuniram, nesta segunda-feira, para debater questões relacionadas à intervenção federal na segurança pública no Rio de Janeiro. Durante o encontro, foi elaborada uma lista com algumas medidas a serem colocadas em prática. Entre elas, estão reuniões com agentes comunitários de saúde para debater a rotina na intervenção, campanhas contra o racismo e iniciativas para divulgar canais de denúncias de violações de direitos.
A Fiocruz deverá desenvolver pesquisas e um monitoramento das comunidades mais próximas, Manguinhos e Maré, ambas na Zona Norte da cidade.
De acordo com o pesquisador Hermano Albuquerque de Castro, diretor da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da Fiocruz e mediador do debate, o crescimento da violência tem relação com o aumento de determinadas doenças. A situação também dificulta o trabalho dos profissionais da área.
"Praticamente todos os dias temos tido notícias de violência e de morte. E esse é também um debate da saúde pública, que vem sendo profundamente afetada. Os agentes de saúde não conseguem trabalhar nos territórios. As populações ficam desassistidas e são penalizadas. Muitos não saem de casa. São diferentes fatores e variáveis que podem interferir para o infarto agudo do miocárdio, para a hipertensão arterial e para o diabetes por exemplo. E eu nem estou falando das mortes diretas pelos tiroteios".
O objetivo da inspeção é fazer um diagnóstico das unidades da PM. A análise servirá para futuras ações da intervenção federal - Divulgação
Clareza
O diretor também avaliou que a intervenção, até o momento, não trouxe novidade na forma de combate ao crime. "Não há ainda uma ideia clara. Nem o plano da intervenção foi publicizado. E ele precisaria ser liberado para sabermos exatamente qual a conduta dessa intervenção. Por enquanto, o que temos assistido após um mês é o mesmo modelo de ação que nós vivemos há anos".
No debate não havia representantes do Gabinete da Intervenção Federal, nem da Secretaria estadual de Segurança Pública.
A cobrança pela divulgação do plano da intervenção vem sendo realizada por diversos órgãos como o Ministério Público, a Defensoria Pública e também por parlamentares.
Na última segunda, deputados federais que se reuniram com o interventor, o general Walter Braga Netto, saíram do encontro afirmando terem obtido a promessa de que a divulgação ocorreria nesta semana.
Moradores chegaram a relatar que teria havido tiroteio pela manhã - Estefan Radovicz / Agência O Dia
Legalização
Para André Barros, vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos da seccional fluminense da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RJ), é preciso mudar a abordagem da questão da segurança pública do Rio de Janeiro. Ele defendeu a legalização da maconha como forma de enfraquecer o crime organizado e reduzir a violência.
Segundo o advogado, há venda de drogas em todos os lugares da cidade, mas as ações de repressão estão concentradas nas favelas.
"Se justificam essas ações porque ali está o chamado tráfico armado. Em Copacabana, por exemplo, há venda de drogas em diversos pontos, mas não há armas. O crime de tráfico em si não é grave. O que é mais grave: matar um pessoa, estuprar ou vender um produto considerado ilegal? Como conduta, o crime mais grave conforme o Código Penal é matar alguém. Mas na prática esse crime pouco tem importado ao Estado. Só 11% dos homicídios no Rio de Janeiro têm sido resolvidos", disse.
André Barros também avalia que o combate ao tráfico de armas deveria mobilizar maior atenção do Estado.

terça-feira, 27 de março de 2018

Cinco jovens são mortos em condomínio do 'Minha Casa, Minha Vida' em Maricá


Marco Jonathan, 17 anos, é um dos cinco mortos em Maricá
Marco Jonathan, 17 anos, é um dos cinco mortos em Maricá Foto: Divulgação/Reprodução
Cinco jovens foram mortos na madrugada de ontem em um condomínio do programa "Minha Casa, Minha Vida" em Itaipuaçu, distrito de Maricá. As vítimas foram identificadas como Sávio de Oliveira Vitipó, de 19 anos, Mateus Bitencourt da Silva, de 18 anos, e os adolescentes Patrick da Silva Diniz, Matheus Barauna dos Santos e Marco Jonathan da Silva Oliveira. As informações são da Polícia Civil.
Segundo testemunhas, os jovens conversavam em uma área de convivência do conjunto habitacional após voltarem de um show de rap no Centro da cidade, quando foram surpreendidas por homens armados. A Delegacia de Homicídios de Niterói e São Gonçalo (DHNSG) investiga o caso. A perícia foi feita no local.
— O meu filho deixou amigas em casa e veio cumprimentar alguém. Chegaram dois homens, mandaram eles deitarem no chão, deram um tiro na cabeça de cada um e saíram gritando "Aqui é milícia e vamos voltar". Uma testemunha viu tudo — contou July Mary Silva, de 34 anos, mãe de Marco Jonathan, de 17 anos.
O secretário de Direitos Humanos e Participação Popular de Maricá, João Carlos Birigu, esteve no local durante a manhã e contou que ao menos um dos jovens articulava um projeto social na área, apoiado pela pasta.
— O Sávio trabalhava em rodas de hip-hop com a gente aqui. Era uma atividade de lazer e conscientização, uma forma de trazer a juventude para a cultura. Eles mesmo articulavam e o objetivo da secretaria era dar suporte.
A mãe de Marco Jonathan, conhecido como “Do quadrado”, afirmou que o filho também participava do projeto e que os planos dos jovens era expandir as atividades.
— Tinham feito uma página no Facebook. Ele ia ser o professor de passinho e o Sávio, o DJ. Íamos exigir que as crianças tirassem notas boas na escola. O Mateus (outra vítima) também estava nesse projeto. Já tínhamos logomarca, íamos fazer uniforme... estava muito no início — falou July, que defendeu o filho. — Eu gostaria de desmentir que meu filho é bandido. Não era. Ele era usuário (de droga), mas estudante, nunca fez mal pra ninguém, nunca roubou. Há três anos, na inauguração do condomínio, ganhou o concurso do passinho. O sonho dele era ser cantor de rap. Todos eles gostavam disso.
Marco Jonathan deixou um filho de 1 ano e 4 meses, Marco Luca. O secretário João Carlos Birigu garantiu que o órgão vai dar todo o apoio para familiares dos jovens:
— Desde o primeiro momento o prefeito designou atenção total ao caso e acompanhamento às famílias. Vamos custear todas as despesas de sepultamento e enterro e, posteriormente, prestar apoio psicológico — falou.
Moradores do condomínio reclamaram, entretanto, da falta de atenção do poder público. Nas conversas, denunciavam “esculachos policiais”.
“Passaram no meu portão outro dia à noite e mandaram eu entrar. Vivem esculachando todo mundo por aqui”, contou uma idosa. Outro morador lamentou:
— O condomínio está abandonado. Quando a gente veio para cá, a prefeitura falou que não ia abandonar a gente. Mas ninguém gosta da gente aqui, falam que colocaram uma favela em Itaipuaçu e espalham mentiras. Dizem que tem tráfico, mas pode perguntar a qualquer funcionário da Prefeitura: não tem — afirmou, sem se identificar.
O morador admitiu o receio de uma dominação da área pela milícia.
— Não tem segurança, mas a gente também não quer polícia que dá tapa na cara e assusta nossas crianças. Daqui a dois anos, o condomínio vai estar na mão da milícia, a gente tendo que pagar pra eles. Já vieram, há uns três meses, dar tiro pro alto aqui. É o recado deles.

Apontadas como suspeitas pela execução de Marielle, milícias atuam no Rio sem serem incomodadas

Estima-se que atualmente cerca de 160 comunidades no Estado do Rio estejam sob o controle de grupos paramilitares. O maior deles é o chamado de Liga da Justiça, criado no final da década de 1990 por Aldemar Almeida dos Santos e Ricardo Teixeira Cruz, conhecidos pelos apelidos de Batman e Robin. Os dois estão presos.
Até o momento, a intervenção federal não incomodou os milicianos. O grosso das operações do Exército no Rio teve como foco principal áreas dominadas pelo tráfico, principalmente pelo Comando Vermelho. Prova disso é que a comunidade escolhida como balão de ensaio pelas autoridades, a Vila Kennedy, na zona oeste, era palco de disputa entre o CV e o Terceiro Comando Puro. Para o sociólogo Ignácio Cano, da Universidade Federal Fluminense, o enfrentamento feito pelo Estado contra os grupos paramilitares foi insuficiente. “As milícias são um câncer no Rio. E embora tenham provocado resposta do Estado depois de 2008, foi insuficiente”, afirma o professor. “Quando o Estado age contra o tráfico ele lança mão de uma lógica militarizada de ocupação da comunidade. Mas com relação às milícias não ocorre isso: eles investigam, podem até prender alguns, mas não tem a lógica de retomada do território”.
A falta de enfrentamento às milícias não está restrita à atual intervenção federal. A única comunidade em poder dos paramilitares que recebeu uma Unidade de Polícia Pacificadora foi o Batan, na zona oeste da cidade – uma dentre as 38 UPPs implementadas.
O combate à atividade das milícias exige estratégias diferentes das utilizadas contra o tráfico. “Para enfrentar as milícias é preciso um trabalho de inteligência para arregimentar provas e denunciar. É difícil o flagrante, uma vez que eles atuam de forma bem organizada”, diz Michel Misse, professor titular de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e fundador do Núcleo de Estudos em Cidadania, Conflito e Violência Urbana. “Infelizmente o trabalho de inteligência das polícias é um dos pontos fracos da atuação delas. Prova disso é que 90% dos presos no Brasil foram detidos em flagrante pelas Polícias Militares, ou seja, são prisões que não dependem de investigação alguma”, afirma. O combate às milícias também esbarra no corporativismo das forças de segurança, tendo em vista que muitas vezes o miliciano é colega de farda de quem deveria prendê-lo.

Gato-net e extorsão

Inicialmente os grupos milicianos surgiram no bairro de Rio das Pedras com a promessa de garantir a segurança dos moradores contra roubos e outros crimes relacionados ao tráfico de drogas. Seu boom ocorreu no início dos anos 2000, nos bairros da zona oeste do Rio e na Baixada Fluminense. Com o enfraquecimento das facções criminosas provocado pela implantação das Unidades de Polícia Pacificadora, os milicianos estenderam seus tentáculos para a zona norte e até mesmo para municípios vizinhos, como Macaé e Angra dos Reis. Sua principal fonte de renda são a venda de proteção, de serviços clandestinos de TV por assinatura (o gato-net, que custa em torno de 40 reais), botijões de gás com sobrepreço e transporte alternativo. Existem relatos de grupos paramilitares mirando também investimentos no setor imobiliário – qualquer venda ou aluguel na comunidade é taxado por eles. Na prática, afirma a pesquisadora da Universidade Estadual do Rio Alba Zaluar, “onde existe uma possibilidade de lucro os milicianos agem”. “Eles acabam controlando as associações de moradores das comunidades, o que facilita o controle sobre os serviços no bairro”, diz a professora.
Liga da Justiça, negociou a venda do ponto para os traficantes por 3 milhões de reais
A relação entre traficantes de drogas e milicianos é inicialmente marcada por conflitos nas áreas em disputa. Depois, geralmente os grupos tendem a entrar em acordo – os traficantes reticentes são mortos ou expulsos. Um caso emblemático ocorreu em agosto de 2015. O Comando Vermelho e milicianos disputavam havia cerca de um ano o controle do Morro do Jordão, em Jacarepaguá. Para colocar um ponto final no conflito, o grupo paramilitar, com apoio da Liga da Justiça, teria negociado a venda do ponto para os traficantes por 3 milhões de reais, como informou o jornal O Dia. Também existem casos de traficantes que pagam uma porcentagem do comércio de drogas para milicianos em troca da autorização para operar bocas em território controlado por paramilitares.
Além da atuação nas comunidades, uma marca dos milicianos é a tentativa de infiltrar candidatos na política, tarefa na qual os traficantes nunca conseguiram muito êxito. Desde 2007 ao menos cinco vereadores da capital fluminense e deputados estaduais já foram presos por envolvimento com os paramilitares – dentre eles Cristiano Girão, eleito vereador pelo PMN e preso em 2009, a vereadora Carminha Jerominho (PT do B), filha de Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho, vereador que também foi preso e condenado a 14 anos de prisão por seu envolvimento com a milícia do bairro Gardênia Azul.
Mas as milícias aprenderam com os erros. Se antes eram os líderes dos grupos que tomavam a frente no processo eleitoral, as prisões recentes ensinaram aos paramilitares que a melhor estratégia é ficar em segundo plano, indicando laranjas como candidatos e praticando o chamado curral eleitoral. O professor Misse aponta que “há uma afinidade ideológica entre os milicianos e alguns candidatos da extrema direita”, o que poderia fazer com que os paramilitares apoiem essas candidaturas. Os candidatos que não agradam aos milicianos podem acabar se tornando alvos: de 2015 até hoje ao menos 13 postulantes a uma vaga na Câmara municipal foram mortos, grande parte deles em áreas controladas pelos paramilitares.
Os grupos milicianos são famosos pela violência com que agem. O caso mais famoso foi o assassinato, em agosto de 2011, da juíza Patrícia Acioli. Ela foi vítima de uma emboscada quando chegava em sua casa, em Niterói. A magistrada foi alvejada com 21 tiros, e morreu no local. Ela era uma rigorosa combatente dos excessos cometidos por policiais e milicianos, tendo condenado dezenas de agentes estatais corruptos. Onze policiais ligados a grupos paramilitares foram condenados pelo assassinato de Acioli.https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/19/politica/1521481656_961928.html?id_externo_rsoc=whatsapp

Crimes como assassinatos e roubos de cargas crescem no primeiro mês de intervenção federal no Rio



Militares durante operação para retirada de contêiner da UPP Vila Kennedy, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.
Militares durante operação para retirada de contêiner da UPP Vila Kennedy, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Foto: Guilherme Pinto / 16.03.2018
Rafael Soares
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Em seu primeiro mês, a intervenção federal na segurança não reduziu a criminalidade no Rio. Levantamento do EXTRA com base em registros de ocorrências feitos em todas as delegacias da capital fluminense, entre 16 de fevereiro, quando o presidente Michel Temer assinou o decreto de intervenção, e 16 de março revela que os homicídios, roubos de carros e roubos de cargas aumentaram em relação ao mesmo período de 2017.
O crime com maior crescimento foi o roubo de veículos. Neste ano foram registrados 1.954 casos na cidade do Rio contra 1.632 no mesmo período do ano passado: um aumento de 19%. Já o roubo de cargas subiu 12%: 317 crimes neste ano e 281 em 2017.
Os homicídios tiveram um aumento menor, de 1,8%: 111 casos em 2017 e 113 este ano. Do total de 2018, 81 vítimas (71%) foram mortas por tiros.
O bairro com mais assassinatos desde o início da intervenção foi justamente o local com mais ações das Forças Armadas no período: Bangu, onde dez casos foram registrados. Ao todo, a 34ª DP (Bangu) registrou 12 mortes — além dos crimes em Bangu, houve dois no bairro vizinho de Padre Miguel. A unidade é a que mais registrou crimes desse tipo no período.
O EXTRA escolheu esses três indicadores porque, entre fevereiro e março do ano passado, a Polícia Civil estava em greve e as delegacias só registravam crimes mais graves. Portanto, indicadores de homicídios e de roubos de carros e de cargas não sofreram distorções.
Quando o primeiro mês de intervenção é comparado com o período imediatamente anterior (18 de janeiro a 15 de fevereiro), roubos de cargas e homicídios aumentaram 3% e 6%. Já roubos de veículos caem 8%: de 2.103 para 1.954.
O único indicador que caiu drasticamente é o de homicídios decorrentes de oposição à intervenção policial, os autos de resistência. Foram 27 casos no primeiro mês de intervenção contra 49 no mesmo período do ano passado e 51 entre 18 de janeiro e 15 de fevereiro.

Família de morto na Rocinha denuncia que PMs 'chegaram atirando durante baile funk'


Matheus, de 19 anos, é um dos sete mortos durante troca de tiros entre PMs e bandidos na Rocinha
Matheus, de 19 anos, é um dos sete mortos durante troca de tiros entre PMs e bandidos na Rocinha Foto: Reprodução
RIO - Familiares de Matheus da Silva Duarte, de 19 anos, um dos oito mortos após ação do Batalhão de Choque (BPChoque) na Rocinha na manhã deste sábado, denunciam que os policiais chegaram atirando contra frequentadores de um baile funk na localidade da Roupa Suja. Márcio Duarte de Oliveira, de 45 anos, pai de Matheus, negou que ele fosse bandido, e falou que os agentes deram tapas e bateram em moradores que estavam no evento, por volta das 5h50m.
- Meu filho era inocente, ele não tem nenhum envolvimento com tráfico. Tem que ter justiça - disse o cobrador de van que mora na Rocinha.
Segundo familiares, Matheus estava procurando emprego. Ele morava com a avó paterna na localidade da Fundação, e foi morto com um tiro nas costas pelos policiais.
- Meu filho foi morto com um tiro de fuzil pelas costas. Isso não existe. Tem que acabar. Eu tenho consciência de que PM tem família, mas os policiais não têm essa consicência de que morador de favela também tem família - disse a mãe de Matheus, que não quis se identificar.
Júlio Morais de Lima, outro morto na ação da PM neste sábado
Júlio Morais de Lima, outro morto na ação da PM neste sábado Foto: Reprodução
Outro morto na ação foi o auxiliar de serviços gerais Júlio Morais de Lima, de 23 anos. Familiares, que preferiram não se identificar, contaram que ele foi atingido no horário que costumava sair para trabalhar.
- Ele trabalhava numa churrascaria. Começou a trabalhar lá ano passado. Eu estava saindo de casa quando um amigo disse que ele tinha sido baleado. Vim pro hospital, mas ele já estava morto. Ele era trabalhador, não era vagabundo. Todo dia tem tiroteio e ele foi mais uma vítima do que acontece na comunidade. Júlio era trabalhador e vou correr atrás para provar isso - disse o familiar, que não soube dizer se o rapaz estava saindo para trabalhar ou se estava saindo do baile funk.
MORADORA VIU AÇÃO
Uma moradora que não quis se identificar viu quando PMs arrastaram os corpos das vítimas para dentro da viatura. Ela disse que é comum moradores sem envolvimento com o tráfico serem abordados de forma truculenta pelos agentes.
- O baile (na quadra da localidade Roupa Suja) tinha acabado e a molecada estava conversando. De repente, os PMs saÍram do túnel pulando do carro e já atirando com o carro em movimento. Os meninos se assustaram e saíram correndo. Todo dia eles batem nos moleques. Batem na cara, acham que todo mundo é bandido. Em vez de averiguarem, pedir documentos, já saem batendo, ameaçam com faca ou arma. Não é todo mundo que mora na favela que é bandido. Meu filho de 16 anos saiu para comprar pão e levou um tapa na cara - contou.
Pelo menos oito pessoas morreram durante um tiroteio entre policiais e criminosos na favela. De acordo com a Polícia Militar, os baleados chegaram a ser socorridos e levados para o Hospital Miguel Couto, mas não resistiram. O caso está sendo investigado pela Divisão de Homicídios. O Grupamento Aeromóvel (GAM) realiza monitoramento aéreo e o cerco na região foi reforçado.
Segundo a PM, o confronto teve início quando agentes do Choque foram atacados na Rua 2 e na Roupa Suja. Fforam apreendidos um fuzil, seis pistolas e duas granadas. Pelo menos uma pessoa foi presa. A PM está em ação continuada na comunidade da Rocinha desde setembro de 2017.

quarta-feira, 14 de março de 2018

Análise: Implementar o que foi prometido não é a preocupação federal


A intervenção federal no Rio é colocada em evidência sem o reconhecimento devido de que o Plano Nacional de Segurança fracassou


Renato Sérgio de Lima*, O Estado de S.Paulo
26 Fevereiro 2018 | 03h00
A palavra que resume a ação federal na área da segurança pública é diversionismo. A intervenção federal no Rio é colocada em evidência sem o reconhecimento devido de que o Plano Nacional de Segurança fracassou, e surge em meio a outra discussão sobre a criação de um Ministério da Segurança Pública. O governo, então, fica fazendo anúncios sem necessariamente se importar em implementar o que já foi anunciado.  
O plano foi lançado no ano passado em meio a outra crise, a do sistema penitenciário, com massacres em cadeias. As intenções são tiradas da cartola como soluções diferentes, mas na verdade ao menos 70% daquele projeto repetia planos anteriores que já tinham seus defeitos. 
O governo também é diversionista ao anunciar uma intervenção extrapolando as suas responsabilidades, ainda que seja direcionada a uma região que tem necessidade. Mas não dá para entender a razão de isso ocorrer no Rio e não no Rio Grande do Norte, que enfrenta sucessivas crises. A população potiguar merece menos? A desordem e a violência estão em patamares similares. Vários outros Estados apresentam sinais agudos de violência.  

Intervenção é troca por dividendos políticos, afirma Azevedo

Intervenção é troca por dividendos políticos, afirma Azevedo

'Ferramentas como essa são o caminho mais curto para um regime autoritário', diz Azevedo

'Ferramentas como essa são o caminho mais curto para um regime autoritário', diz Azevedo

LUIZA PRADO/JC
Bruna Suptitz
Em vigência há pouco mais de uma semana, a intervenção federal no Estado do Rio de Janeiro pode representar um risco para a garantia dos direitos individuais, avalia o professor Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo, especialista em Análise Social da Violência e Segurança Pública. Ele critica a falta de planejamento, por parte da União, de como serão conduzidas as ações de combate ao rime organizado.
Usando o exemplo das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs), que representaram uma tentativa de aproximação do poder público com as comunidades mais vulneráveis da periferia carioca, Azevedo sustenta que a efetividade da ação dependeria de um trabalho conjunto da União, do Estado e do município, abrangendo outras áreas, como saúde e geração de emprego e renda.
Nessa entrevista ao Jornal do Comércio, Azevedo afirma que o Rio de Janeiro não é o Estado com maior problema na área de segurança e avalia a medida tomada pelo presidente Michel Temer (PMDB) “mais como uma forma de obter dividendos eleitorais do que propriamente como uma política consequente de enfrentamento da violência”. A consequência, diz o professor, poderá ser um “endurecimento do regime político” no Brasil.
Jornal do Comércio – Qual a efetividade dessa ação de intervenção federal no Rio de Janeiro para resolver uma questão de segurança pública?
Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo – O Rio de Janeiro, tanto o Estado quanto a cidade, tem enfrentado problemas na segurança pública há bastante tempo. Desde os anos 1980, no governo (Leonel) Brizola, houve o crescimento de grupos ligados ao tráfico de drogas, o que aumentou muito a capacidade desses grupos se armarem, ocuparem território e, de lá para cá, os diversos governos que foram se sucedendo nunca conseguiram dar uma resposta efetiva para essa situação. Isso até 2008, quando começaram a ser implantadas as UPPs, sob a coordenação do secretário de Segurança José Mariano Beltrame, que foram uma tentativa de ocupação desses territórios pela polícia de forma mais permanente, e isso trouxe resultados. Os dados de 2008 a 2015 mostram uma queda das taxas de homicídio e de criminalidade de maneira geral, então não dá para dizer que o Rio de Janeiro nunca teve uma política bem sucedida. As UPPs tiveram sucesso, só que tinham um limite: a pura e simples presença da polícia não resolve tudo. É preciso que haja outros serviços públicos, como saúde, educação, especialmente geração de emprego e renda nessas comunidades, para que o tráfico seja excluído de uma forma mais permanente, e para que os jovens tenham alternativas de vida que sejam viáveis. E isso não aconteceu. É preciso compreender que o crescimento da violência não é especificamente no Rio de Janeiro - que não está entre os estados mais violentos - mas é uma vitrine pela questão do turismo e por ser a cidade mais conhecida do país em nível internacional. Essa situação de deterioração das políticas de segurança do Rio já vinha acontecendo há algum tempo, dando margem para a intervenção do exército através das GLOs (Garantia da Lei e da Ordem), que é prevista constitucionalmente. A novidade agora é que há uma intervenção federal na área da segurança pública, que não tem caráter militar – retira a competência do governo do Estado e dá ao interventor. Tem se chamado de intervenção militar porque o interventor é um general. Poderia ser um político, um civil...
JC – É adequado usar esse termo (intervenção militar)?
Azevedo – Não é o mais adequado, na minha opinião. É uma intervenção da União no Estado, que não necessariamente deveria ser realizada por pessoas ligadas às forças armadas. Mas esse caráter acabou sendo dado. Até agora não está claro o que se pretende com essa intervenção, mas eu diria que há dois cenários possíveis, um mais positivo e outro - que me parece estar se consolidando - mais negativo. O favorável seria reconhecer que, quando há uma perda de controle do Estado na área da segurança pública, talvez o principal motivo seja a corrupção policial. Ou seja, os órgãos policiais, tanto militar quanto civil, não têm capacidade operacional, porque estão minados por relações promíscuas com o crime organizado. E, já que o governo estadual não consegue atuar e coibir essas práticas ilícitas, chama-se o governo federal. Não parece ser esse o foco. Até agora não se disse nada sobre isso e, pelo contrário, o foco vem sendo, cada vez e de uma forma mais explícita, a ideia de que, para combater a violência no Rio de Janeiro, é preciso que haja uma redução dos direitos e garantias individuais, como a ideia dos chamados mandados de busca e apreensão coletivos, para que, em determinadas áreas, a polícia tenha salvo-conduto para invadir residências sem que haja mandados de busca e apreensão específicos, como a lei prevê. Sabemos que ferramentas como essa são o caminho mais curto para um regime autoritário, em que não há controle por parte da sociedade sobre como agem as forças de segurança. São situações que levam aos abusos e que acabam se voltando contra a população de uma maneira geral, e não contra o crime, porque são muito pouco efetivas para coibir ou erradicar a criminalidade organizada.
JC – Essa ação é necessária, era a única ou a melhor alternativa para tentar resolver o problema do avanço da criminalidade?
Azevedo – Com certeza essa não era a melhor opção, especialmente por esse caminho que vem sendo proposto, de uma flexibilização das garantias legais para a ação das forças policiais e do próprio exército. O que precisaríamos seria o reforço dos órgãos estaduais ligados à segurança pública, das polícias civil e militar, tanto na capacidade investigativa quando de policiamento ostensivo, para retomarem o caminho que foi iniciado em 2008 de ocupação de determinadas áreas, acompanhadas de outros órgãos do poder público que pudessem também ter algum papel na prevenção. Não é isso que está sendo dito e proposto pelo governo federal e pelo interventor. Além disso, não houve nenhuma novidade nas últimas semanas que pudesse levar a essa conclusão de que há uma situação nova e exigiria algum tipo de atuação mais espetacular da União nessa área. Se formos olhar as estatísticas do Rio de Janeiro, não há uma explosão da criminalidade como o discurso do governo federal tem feito crer. O que houve foi, durante o carnaval, cenas filmadas de práticas criminais como arrastões, assaltos, que chamaram muita atenção até pelo caráter midiático que foi dado. Haveria, sim, a possibilidade de parceria entre União, Estado e município, para que outras iniciativas fossem tomadas, muito mais adequadas e muito mais vinculadas a uma ideia de legalidade, de atuação conjunta, com resultados mais efetivos do que uma decisão como essa – até agora não se disse qual é o foco, quais são os objetivos, indicadores que serão utilizados.
JC – O comandante do exército diz querer garantia para agir sem o risco de surgir uma nova comissão da verdade. O quanto isso nos remete a um período de ditadura militar?
Azevedo – O que essa frase denota é a ideia de que a participação do exército nas políticas de segurança só pode ocorrer mediante uma espécie de salvo-conduto preventivo, a partir do qual qualquer ato praticado pelos militares está salvaguardado, é considerado legítimo e portanto não é passível de responsabilização criminal dos seus autores. É isso que se pretende. Isso começou a ser implementado no ano passado, quando se transferiu a competência dos crimes praticados por militares em ação na segurança pública para a Justiça Militar, mudança que já foi denunciada por setores ligados à defesa dos direitos humanos. Agora se pretende ir além e dar aos militares e às próprias polícias uma possibilidade de atuarem de forma a utilizarem a violência letal contra pessoas que estão em situação duvidosa. Isso, na verdade, é uma espécie de legitimação da pena de morte no Brasil, de maneira informal, coisa que já acontece muitas vezes. Mas ainda temos, pelo menos enquanto país está sob a égide de uma Constituição vigente, caminhos legais para coibir essas ações quando são praticadas de forma indevida.
JC – Existe a possibilidade de que ações como essa se estendam para outros estados?
Azevedo – A ação no Rio de Janeiro tem um caráter talvez muito mais espetacular e ligado ao contexto político de um ano eleitoral. Portanto, não podemos desconsiderar a importância dessa intervenção do ponto de vista dos interesses mais imediatos do atual governo. Possivelmente haverá demanda de outros governos para que essa intervenção aconteça. O Exército já está atuando em outros estados naquele mecanismo das GLOs. Se alguns resultados forem obtidos a curto prazo no Rio de Janeiro, no sentido de uma redução, pelo menos do ponto de vista mais midiático, da violência, talvez essa demanda se dissemine para outros estados e tudo isso acabe servindo muito mais como uma forma de obter dividendos eleitorais do que propriamente como uma política consequente de enfrentamento da violência no Brasil a médio e longo prazo.
JC – O Rio Grande do Sul seria um desses Estados?
Azevedo – Me parece que não. O Rio Grande do Sul vive uma situação de crise na segurança pública há algum tempo, no entanto essa crise já teve um ápice no ano de 2016, quando houve a troca na secretaria da segurança e a vinda da Força Nacional. De lá para cá, pelo menos houve melhora em alguns indicadores criminais, o que acaba diminuindo um pouco a tensão e a pressão sobre o governo estadual.
JC – O governo está se aproveitando do ano eleitoral para inserir uma pauta política, como agenda positiva? Que efeito isso poderá ter no cenário eleitoral desse ano?
Azevedo – Não há a menor dúvida de que o tema da Segurança Pública será muito explorado durante os debates eleitorais. Há uma maioria formada na população brasileira seduzida pelo discurso populista de que, para o combate ao crime, a democracia é um problema, e que é preciso flexibilizar regras e garantias para que as forças de segurança possam atuar e ter resultados. Isso é uma grande ilusão, porque, pelo contrário, desde 1988 até hoje o Brasil não conseguiu colocar as suas forças de segurança pública sob a égide de um regulamento constitucional e democrático. Há muitos problemas históricos que têm a ver com toda uma tradição autoritária e inquisitiva do sistema de justiça e segurança que fazem com que as nossas polícias sejam pouco profissionais, extremamente violentas e muito ineficazes para realizarem as suas atribuições, especialmente na investigação criminal. O que estamos vendo com a intervenção vai no sentido do agravamento desse quadro, ou seja, ao invés de enfrentar os problemas, estamos presenciando uma volta ao passado. Diante disso, a situação é bastante difícil, na medida em que há essa demanda social por segurança, um discurso populista que dialoga com essa demanda, que em ano eleitoral tem muita potencialidade para garantir a eleição de candidatos num contexto de crise política de fragilização dos partidos e de reforço de caminhos que não tem nenhuma perspectiva do ponto de vista democrático.
JC – Essa pode ser considerada uma estratégia do governo para desviar o foco da reforma da Previdência, cuja tendência era ser derrotada no Congresso Nacional? É um jogo de interesse?

Azevedo – Sem dúvida. Esse governo tem muita dificuldade de se manter, e vem se mantendo não porque tenha respaldo popular, mas há sim apoio do meio empresarial e de parte da mídia. Esse apoio é dado muito em nome das prometidas reformas – trabalhista e da Previdência – que agradam ao mercado e seriam a promessa de crescimento econômico a partir da sua implementação. Mas sabemos que a situação não é tão simples, a reforma da Previdência teve resistência da própria base do governo. Não podemos esquecer, dentro desse governo há muitos investigados e acusados de crimes, que têm no foro privilegiado sua única possibilidade de evitar uma responsabilização. Para isso, vão lançar mão de todo tipo de recurso, na medida em que têm o poder na mão, para, em ano eleitoral, conseguirem se manter nesses cargos. Isso é grave, e utilizar o Exército como ferramenta para obtenção de dividendos eleitorais é mais grave ainda. Dar ao Exército esse papel de interventor no Brasil, um país que tem uma longa história de intervenções militares, de regimes militares, de tutela das forças armadas sobre a sociedade civil e o sistema político, tudo isso reaviva o receio de que estejamos caminhando para o endurecimento do regime político. É importante que a sociedade brasileira tenha clareza do que isso pode produzir e tanto os cidadãos quanto as instituições possam tomar os devidos cuidados para que possamos barrar esse processo de paulatina degradação da ordem democrática construída com tanta dificuldade a partir de 1988.

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