terça-feira, 27 de março de 2018

Apontadas como suspeitas pela execução de Marielle, milícias atuam no Rio sem serem incomodadas

Estima-se que atualmente cerca de 160 comunidades no Estado do Rio estejam sob o controle de grupos paramilitares. O maior deles é o chamado de Liga da Justiça, criado no final da década de 1990 por Aldemar Almeida dos Santos e Ricardo Teixeira Cruz, conhecidos pelos apelidos de Batman e Robin. Os dois estão presos.
Até o momento, a intervenção federal não incomodou os milicianos. O grosso das operações do Exército no Rio teve como foco principal áreas dominadas pelo tráfico, principalmente pelo Comando Vermelho. Prova disso é que a comunidade escolhida como balão de ensaio pelas autoridades, a Vila Kennedy, na zona oeste, era palco de disputa entre o CV e o Terceiro Comando Puro. Para o sociólogo Ignácio Cano, da Universidade Federal Fluminense, o enfrentamento feito pelo Estado contra os grupos paramilitares foi insuficiente. “As milícias são um câncer no Rio. E embora tenham provocado resposta do Estado depois de 2008, foi insuficiente”, afirma o professor. “Quando o Estado age contra o tráfico ele lança mão de uma lógica militarizada de ocupação da comunidade. Mas com relação às milícias não ocorre isso: eles investigam, podem até prender alguns, mas não tem a lógica de retomada do território”.
A falta de enfrentamento às milícias não está restrita à atual intervenção federal. A única comunidade em poder dos paramilitares que recebeu uma Unidade de Polícia Pacificadora foi o Batan, na zona oeste da cidade – uma dentre as 38 UPPs implementadas.
O combate à atividade das milícias exige estratégias diferentes das utilizadas contra o tráfico. “Para enfrentar as milícias é preciso um trabalho de inteligência para arregimentar provas e denunciar. É difícil o flagrante, uma vez que eles atuam de forma bem organizada”, diz Michel Misse, professor titular de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e fundador do Núcleo de Estudos em Cidadania, Conflito e Violência Urbana. “Infelizmente o trabalho de inteligência das polícias é um dos pontos fracos da atuação delas. Prova disso é que 90% dos presos no Brasil foram detidos em flagrante pelas Polícias Militares, ou seja, são prisões que não dependem de investigação alguma”, afirma. O combate às milícias também esbarra no corporativismo das forças de segurança, tendo em vista que muitas vezes o miliciano é colega de farda de quem deveria prendê-lo.

Gato-net e extorsão

Inicialmente os grupos milicianos surgiram no bairro de Rio das Pedras com a promessa de garantir a segurança dos moradores contra roubos e outros crimes relacionados ao tráfico de drogas. Seu boom ocorreu no início dos anos 2000, nos bairros da zona oeste do Rio e na Baixada Fluminense. Com o enfraquecimento das facções criminosas provocado pela implantação das Unidades de Polícia Pacificadora, os milicianos estenderam seus tentáculos para a zona norte e até mesmo para municípios vizinhos, como Macaé e Angra dos Reis. Sua principal fonte de renda são a venda de proteção, de serviços clandestinos de TV por assinatura (o gato-net, que custa em torno de 40 reais), botijões de gás com sobrepreço e transporte alternativo. Existem relatos de grupos paramilitares mirando também investimentos no setor imobiliário – qualquer venda ou aluguel na comunidade é taxado por eles. Na prática, afirma a pesquisadora da Universidade Estadual do Rio Alba Zaluar, “onde existe uma possibilidade de lucro os milicianos agem”. “Eles acabam controlando as associações de moradores das comunidades, o que facilita o controle sobre os serviços no bairro”, diz a professora.
Liga da Justiça, negociou a venda do ponto para os traficantes por 3 milhões de reais
A relação entre traficantes de drogas e milicianos é inicialmente marcada por conflitos nas áreas em disputa. Depois, geralmente os grupos tendem a entrar em acordo – os traficantes reticentes são mortos ou expulsos. Um caso emblemático ocorreu em agosto de 2015. O Comando Vermelho e milicianos disputavam havia cerca de um ano o controle do Morro do Jordão, em Jacarepaguá. Para colocar um ponto final no conflito, o grupo paramilitar, com apoio da Liga da Justiça, teria negociado a venda do ponto para os traficantes por 3 milhões de reais, como informou o jornal O Dia. Também existem casos de traficantes que pagam uma porcentagem do comércio de drogas para milicianos em troca da autorização para operar bocas em território controlado por paramilitares.
Além da atuação nas comunidades, uma marca dos milicianos é a tentativa de infiltrar candidatos na política, tarefa na qual os traficantes nunca conseguiram muito êxito. Desde 2007 ao menos cinco vereadores da capital fluminense e deputados estaduais já foram presos por envolvimento com os paramilitares – dentre eles Cristiano Girão, eleito vereador pelo PMN e preso em 2009, a vereadora Carminha Jerominho (PT do B), filha de Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho, vereador que também foi preso e condenado a 14 anos de prisão por seu envolvimento com a milícia do bairro Gardênia Azul.
Mas as milícias aprenderam com os erros. Se antes eram os líderes dos grupos que tomavam a frente no processo eleitoral, as prisões recentes ensinaram aos paramilitares que a melhor estratégia é ficar em segundo plano, indicando laranjas como candidatos e praticando o chamado curral eleitoral. O professor Misse aponta que “há uma afinidade ideológica entre os milicianos e alguns candidatos da extrema direita”, o que poderia fazer com que os paramilitares apoiem essas candidaturas. Os candidatos que não agradam aos milicianos podem acabar se tornando alvos: de 2015 até hoje ao menos 13 postulantes a uma vaga na Câmara municipal foram mortos, grande parte deles em áreas controladas pelos paramilitares.
Os grupos milicianos são famosos pela violência com que agem. O caso mais famoso foi o assassinato, em agosto de 2011, da juíza Patrícia Acioli. Ela foi vítima de uma emboscada quando chegava em sua casa, em Niterói. A magistrada foi alvejada com 21 tiros, e morreu no local. Ela era uma rigorosa combatente dos excessos cometidos por policiais e milicianos, tendo condenado dezenas de agentes estatais corruptos. Onze policiais ligados a grupos paramilitares foram condenados pelo assassinato de Acioli.https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/19/politica/1521481656_961928.html?id_externo_rsoc=whatsapp

Crimes como assassinatos e roubos de cargas crescem no primeiro mês de intervenção federal no Rio



Militares durante operação para retirada de contêiner da UPP Vila Kennedy, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.
Militares durante operação para retirada de contêiner da UPP Vila Kennedy, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Foto: Guilherme Pinto / 16.03.2018
Rafael Soares
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Em seu primeiro mês, a intervenção federal na segurança não reduziu a criminalidade no Rio. Levantamento do EXTRA com base em registros de ocorrências feitos em todas as delegacias da capital fluminense, entre 16 de fevereiro, quando o presidente Michel Temer assinou o decreto de intervenção, e 16 de março revela que os homicídios, roubos de carros e roubos de cargas aumentaram em relação ao mesmo período de 2017.
O crime com maior crescimento foi o roubo de veículos. Neste ano foram registrados 1.954 casos na cidade do Rio contra 1.632 no mesmo período do ano passado: um aumento de 19%. Já o roubo de cargas subiu 12%: 317 crimes neste ano e 281 em 2017.
Os homicídios tiveram um aumento menor, de 1,8%: 111 casos em 2017 e 113 este ano. Do total de 2018, 81 vítimas (71%) foram mortas por tiros.
O bairro com mais assassinatos desde o início da intervenção foi justamente o local com mais ações das Forças Armadas no período: Bangu, onde dez casos foram registrados. Ao todo, a 34ª DP (Bangu) registrou 12 mortes — além dos crimes em Bangu, houve dois no bairro vizinho de Padre Miguel. A unidade é a que mais registrou crimes desse tipo no período.
O EXTRA escolheu esses três indicadores porque, entre fevereiro e março do ano passado, a Polícia Civil estava em greve e as delegacias só registravam crimes mais graves. Portanto, indicadores de homicídios e de roubos de carros e de cargas não sofreram distorções.
Quando o primeiro mês de intervenção é comparado com o período imediatamente anterior (18 de janeiro a 15 de fevereiro), roubos de cargas e homicídios aumentaram 3% e 6%. Já roubos de veículos caem 8%: de 2.103 para 1.954.
O único indicador que caiu drasticamente é o de homicídios decorrentes de oposição à intervenção policial, os autos de resistência. Foram 27 casos no primeiro mês de intervenção contra 49 no mesmo período do ano passado e 51 entre 18 de janeiro e 15 de fevereiro.

Família de morto na Rocinha denuncia que PMs 'chegaram atirando durante baile funk'


Matheus, de 19 anos, é um dos sete mortos durante troca de tiros entre PMs e bandidos na Rocinha
Matheus, de 19 anos, é um dos sete mortos durante troca de tiros entre PMs e bandidos na Rocinha Foto: Reprodução
RIO - Familiares de Matheus da Silva Duarte, de 19 anos, um dos oito mortos após ação do Batalhão de Choque (BPChoque) na Rocinha na manhã deste sábado, denunciam que os policiais chegaram atirando contra frequentadores de um baile funk na localidade da Roupa Suja. Márcio Duarte de Oliveira, de 45 anos, pai de Matheus, negou que ele fosse bandido, e falou que os agentes deram tapas e bateram em moradores que estavam no evento, por volta das 5h50m.
- Meu filho era inocente, ele não tem nenhum envolvimento com tráfico. Tem que ter justiça - disse o cobrador de van que mora na Rocinha.
Segundo familiares, Matheus estava procurando emprego. Ele morava com a avó paterna na localidade da Fundação, e foi morto com um tiro nas costas pelos policiais.
- Meu filho foi morto com um tiro de fuzil pelas costas. Isso não existe. Tem que acabar. Eu tenho consciência de que PM tem família, mas os policiais não têm essa consicência de que morador de favela também tem família - disse a mãe de Matheus, que não quis se identificar.
Júlio Morais de Lima, outro morto na ação da PM neste sábado
Júlio Morais de Lima, outro morto na ação da PM neste sábado Foto: Reprodução
Outro morto na ação foi o auxiliar de serviços gerais Júlio Morais de Lima, de 23 anos. Familiares, que preferiram não se identificar, contaram que ele foi atingido no horário que costumava sair para trabalhar.
- Ele trabalhava numa churrascaria. Começou a trabalhar lá ano passado. Eu estava saindo de casa quando um amigo disse que ele tinha sido baleado. Vim pro hospital, mas ele já estava morto. Ele era trabalhador, não era vagabundo. Todo dia tem tiroteio e ele foi mais uma vítima do que acontece na comunidade. Júlio era trabalhador e vou correr atrás para provar isso - disse o familiar, que não soube dizer se o rapaz estava saindo para trabalhar ou se estava saindo do baile funk.
MORADORA VIU AÇÃO
Uma moradora que não quis se identificar viu quando PMs arrastaram os corpos das vítimas para dentro da viatura. Ela disse que é comum moradores sem envolvimento com o tráfico serem abordados de forma truculenta pelos agentes.
- O baile (na quadra da localidade Roupa Suja) tinha acabado e a molecada estava conversando. De repente, os PMs saÍram do túnel pulando do carro e já atirando com o carro em movimento. Os meninos se assustaram e saíram correndo. Todo dia eles batem nos moleques. Batem na cara, acham que todo mundo é bandido. Em vez de averiguarem, pedir documentos, já saem batendo, ameaçam com faca ou arma. Não é todo mundo que mora na favela que é bandido. Meu filho de 16 anos saiu para comprar pão e levou um tapa na cara - contou.
Pelo menos oito pessoas morreram durante um tiroteio entre policiais e criminosos na favela. De acordo com a Polícia Militar, os baleados chegaram a ser socorridos e levados para o Hospital Miguel Couto, mas não resistiram. O caso está sendo investigado pela Divisão de Homicídios. O Grupamento Aeromóvel (GAM) realiza monitoramento aéreo e o cerco na região foi reforçado.
Segundo a PM, o confronto teve início quando agentes do Choque foram atacados na Rua 2 e na Roupa Suja. Fforam apreendidos um fuzil, seis pistolas e duas granadas. Pelo menos uma pessoa foi presa. A PM está em ação continuada na comunidade da Rocinha desde setembro de 2017.

terça-feira, 20 de março de 2018

Interventor diz que déficit das Forças de Segurança do RJ é de R$ 3,1 bilhões

Anúncio foi em reunião na manhã desta segunda (19) com deputados da bancada federal do Rio. 

Em entrevista em Brasília, o presidente Temer disse que a verba para a intervenção do Rio deve ser entre R$ 600 e R$ 800 milhões.

Por Carlos Brito, G1 Rio
 
Interventor federal diz que precisa de R$ 3 bi para recuperar polícias do RJ
A Segurança Pública do Rio tem um déficit de R$ 3,1 bilhões, segundo o interventor federal general Braga Netto. A informação foi passada inicialmente pelos deputados da bancada do Rio de Janeiro, que integram a Comissão Externa de Acompanhamento da Câmara Federal, após encontro com o interventor na manhã desta segunda-feira (19), no Centro de Controle Integrado de Segurança, no Centro do Rio. O Gabinete de Intervenção Federal (GIF) confirmou que o general passou a informação aos parlamentares durante a reunião.
No início da tarde, o presidente Michel Temer disse, em entrevista ao O Globo durante evento em Brasília, que a verba para a intervenção do Rio deve ser entre R$ 600 e R$ 800 milhões.
Na noite desta segunda-feira, a Secretaria de Comunicação Social da Presidência informou que o governo definiu que a intervenção no Rio de Janeiro receberá R$ 1 bilhão. Ainda segundo a assessoria da Presidência, a verba para o Ministério da Segurança pode chegar a R$ 4 bilhões.
Os recursos deverão constar de uma medida provisória a ser editada pelo presidente Michel Temer ainda nesta semana.
De acordo com levantamentos feitos pelo gabinete a divisão ocorreria da seguinte forma:
  • R$ 1 bilhão - para despesas com pessoal
  • R$ 600 milhões - pagamentos de dívidas já existentes
  • R$ 1,5 bilhão - custeio e investimentos até o fim do ano
“As forças de segurança pública têm um total de R$ 1,6 bilhão para pagar. Some-se isso ao R$ 1,5 bilhão de verbas que ainda nem chegaram e temos um passivo de R$ 3,1 bilhões para a área de segurança do Estado este ano. Como o Governo Federal anunciou um aporte de R$ 1 bilhão para a intervenção, o que existe é uma operação deficitária. Ou seja, fica mais que claro que a intervenção foi feita de maneira improvisada e sem planejamento nenhum”, afirmou o deputado Alessandro Molon (PSB), um dos integrantes da comissão.
Deputado Alessandro Molon afirma que não há verba para a intervenção
No domingo (18), o ministro do Planejamento e Gestão, Dyogo Oliveira, afirmou que a pasta vai aprovar um crédito extraordinário de R$ 1 bilhão para a intervenção no Rio de Janeiro. A fonte dessa verba, no entanto, ainda não havia sido definida. Segundo ele, a situação será resolvida até o fim desta semana.
O déficit de R$ 3,1 bilhões, calculado pelo coronel Braga Netto, foi anunciado pelo coordenador da comissão, deputado Hugo Leal (PSB), que revelou, também, um número de 20 mil policiais a menos nas polícias do Rio.
"Os quadros das polícias civil e militar têm um déficit de 20 mil pessoas – 10 mil em cada corporação. Essa é outra questão que precisa ser resolvida", avaliou o deputado.

Reunião com Pezão

Depois da reunião com os parlamentares, Braga Netto foi se encontrar com o governador Luiz Fernando Pezão, no Palácio Guanabara.
Em seu twitter, Pezão falou que nos próximos dias vai finalizar um levantamento com as prioridades da área para balizar a liberação e o uso de recursos. O governador disse que os recursos este ano podem chegar a R$220 milhões.
Segundo o governador, além dos valores liberados pelo Governo Federal, o Rio terá em breve recursos do Fundo Estadual de Investimentos e Ações de Segurança Pública e Desenvolvimento Social (Fised).
"São recursos que deve capitalizar, somente este ano, entre R$ 200 milhões e R$ 220 milhões, a serem aplicados em investimentos na Segurança Pública", escreveu o governador. "O Rio de Janeiro é um dos estados brasileiros com maior investimento per capita em segurança e a maior parte desses recursos é destinada ao pagamento de salários dos servidores, o que acaba restringindo os investimentos na área", argumentou.
Pezão também disse que já começou o processo de compra de cerca de 900 novas viaturas para as polícias Militar e Civil. As primeiras 290 vão chegar em abril.

Marielle

Durante a reunião do general Braga Netto com os parlamentares, também foi dito que a investigação sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco, morta a tiros na noite da última quarta-feira (14) no Estácio, região central da cidade, ainda está em estágios iniciais. A infomação foi passada pelo deputado Chico Alencar (PSOL).
"O secretário de Segurança, coronel Richard Nunes, afirmou que o assassinato da Marielle é uma prioridade absoluta da polícia. Mas ele falou que prioridade não pode significar precipitação, lembrando que a resolução da morte da juíza Patrícia Acioli demorou 60 dias. Segundo os responsáveis pela intervenção, a investigação ainda está no início", disse o parlamentar.
Deputados levaram cartazes em homenagem à vereadora Marielle Franco (Foto: Carlos Brito)Deputados levaram cartazes em homenagem à vereadora Marielle Franco (Foto: Carlos Brito)
Deputados levaram cartazes em homenagem à vereadora Marielle Franco (Foto: Carlos Brito)
"Ainda estamos sob o impacto do assassinato da Marielle. E pior: ela sofre uma espécie de segunda morte por conta de toda a campanha difamatória feita contra ela nas redes sociais", finalizou Alencar, que levou à reunião cartazes em homenagem à vereadora.

Datafolha: 73% dos moradores do Rio querem deixar a cidade por medo da violência

02.04.2018 13:57  por  Redação Pesquisa ainda mostra que um terço dos cariocas já esteve em meio a um tiroteio e que 92% temem morrer ...