quarta-feira, 28 de março de 2018

Encontro debate a intervenção federal no Rio

Pesquisador defende que violência afeta saúde de moradores das comunidades

- Atualizado às 00h20 de 27/03/2018
Incursão das Forças Armadas  na Vila Kenedy
Incursão das Forças Armadas na Vila Kenedy - Estefan Radovicz / Agência O Dia
Rio - Pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), defensores dos direitos humanos, profissionais da saúde e moradores de comunidades se reuniram, nesta segunda-feira, para debater questões relacionadas à intervenção federal na segurança pública no Rio de Janeiro. Durante o encontro, foi elaborada uma lista com algumas medidas a serem colocadas em prática. Entre elas, estão reuniões com agentes comunitários de saúde para debater a rotina na intervenção, campanhas contra o racismo e iniciativas para divulgar canais de denúncias de violações de direitos.
A Fiocruz deverá desenvolver pesquisas e um monitoramento das comunidades mais próximas, Manguinhos e Maré, ambas na Zona Norte da cidade.
De acordo com o pesquisador Hermano Albuquerque de Castro, diretor da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da Fiocruz e mediador do debate, o crescimento da violência tem relação com o aumento de determinadas doenças. A situação também dificulta o trabalho dos profissionais da área.
"Praticamente todos os dias temos tido notícias de violência e de morte. E esse é também um debate da saúde pública, que vem sendo profundamente afetada. Os agentes de saúde não conseguem trabalhar nos territórios. As populações ficam desassistidas e são penalizadas. Muitos não saem de casa. São diferentes fatores e variáveis que podem interferir para o infarto agudo do miocárdio, para a hipertensão arterial e para o diabetes por exemplo. E eu nem estou falando das mortes diretas pelos tiroteios".
O objetivo da inspeção é fazer um diagnóstico das unidades da PM. A análise servirá para futuras ações da intervenção federal - Divulgação
Clareza
O diretor também avaliou que a intervenção, até o momento, não trouxe novidade na forma de combate ao crime. "Não há ainda uma ideia clara. Nem o plano da intervenção foi publicizado. E ele precisaria ser liberado para sabermos exatamente qual a conduta dessa intervenção. Por enquanto, o que temos assistido após um mês é o mesmo modelo de ação que nós vivemos há anos".
No debate não havia representantes do Gabinete da Intervenção Federal, nem da Secretaria estadual de Segurança Pública.
A cobrança pela divulgação do plano da intervenção vem sendo realizada por diversos órgãos como o Ministério Público, a Defensoria Pública e também por parlamentares.
Na última segunda, deputados federais que se reuniram com o interventor, o general Walter Braga Netto, saíram do encontro afirmando terem obtido a promessa de que a divulgação ocorreria nesta semana.
Moradores chegaram a relatar que teria havido tiroteio pela manhã - Estefan Radovicz / Agência O Dia
Legalização
Para André Barros, vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos da seccional fluminense da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RJ), é preciso mudar a abordagem da questão da segurança pública do Rio de Janeiro. Ele defendeu a legalização da maconha como forma de enfraquecer o crime organizado e reduzir a violência.
Segundo o advogado, há venda de drogas em todos os lugares da cidade, mas as ações de repressão estão concentradas nas favelas.
"Se justificam essas ações porque ali está o chamado tráfico armado. Em Copacabana, por exemplo, há venda de drogas em diversos pontos, mas não há armas. O crime de tráfico em si não é grave. O que é mais grave: matar um pessoa, estuprar ou vender um produto considerado ilegal? Como conduta, o crime mais grave conforme o Código Penal é matar alguém. Mas na prática esse crime pouco tem importado ao Estado. Só 11% dos homicídios no Rio de Janeiro têm sido resolvidos", disse.
André Barros também avalia que o combate ao tráfico de armas deveria mobilizar maior atenção do Estado.

terça-feira, 27 de março de 2018

”Uma tropa para ser vista”

 Um mês depois de o general Walter Braga Netto anunciar que a intervenção federal teria “um papel gerencial” na segurança pública do estado, surge uma mudança de estratégia, adotada após uma explosão de violência. O fim de semana teve oito mortes na Rocinha (além de uma nona ontem, durante um novo confronto) e uma chacina de cinco jovens em Maricá; já a segunda-feira começou com um intenso confronto entre traficantes e milicianos e terminou com um tiroteio dentro do Botafogo Praia Shopping. Agora, as Forças Armadas vão para as ruas: a partir de hoje, militares ficarão de prontidão em pontos do Centro e das zonas Sul e Norte. Para especialistas, trata-se de uma alteração de rumo, cujo objetivo é dar visibilidade às tropas, proporcionando sensação de segurança à população.
O cientista político Guaracy Mingarde, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, afirmou que a nova estratégia não deixa de ser uma forma de marketing para manter o apoio da população à intervenção, que, segundo ele, “não foi abalado, apesar dos resultados inexpressivos”: “Se o morador do Rio ficar mais dois meses sem ver nada de concreto, passará a não ser mais favorável (à intervenção). Vai ter mais gente cuidando da segurança nas ruas. Para o policiamento, a experiência é muito importante. Mas, se os militares tomarem atitudes erradas, vão ter a população tomando posição contra eles”.
Para José Ricardo Bandeira, presidente do Instituto de Criminalística e Ciências Policiais da América Latina, a sensação de segurança vai aumentar nos bairros que receberão patrulhamento do Exército, porém por um curto período. Ele lamenta que áreas mais castigadas pela violência, como grande parte da Zona Oeste e a Baixada Fluminense, tenham ficado de fora da nova estratégia: “Num primeiro momento, a sensação de segurança pode mesmo aumentar. Mas, se os índices de criminalidade não caírem, só vai durar alguns dias”.

Após 40 dias, intervenção de Temer segue sem rumo contra a violência no Rio

Mortes violentas se repetem sem uma estratégia clara de general do Exército

Policiais militares continuam sendo mortos em confrontos com criminosos e moradores de áreas carentes permanecem sofrendo com os altos índices de violência.
Só no último final de semana foram ao menos oito mortos na Rocinha e cinco jovens assassinados em Maricá, na região metropolitana do Rio.
Para agravar a situação, uma vereadora foi morta a pouco mais de um quilômetro do quartel general da intervenção federal, num crime aparentemente premeditado, com repercussão internacional, e sem solução até agora.
Quarenta dias depois da nomeação do general do Exército Walter Braga Nettocomo interventor na segurança pública no estado, a situação do Rio permanece distante da promessa do presidente Michel Temer () de restabelecimento da ordem.
“O governo dará respostas duras, firmes e adotará todas as providências necessárias para enfrentar e derrotar o crime organizado e as quadrilhas”, afirmou Temer em 16 de fevereiro, na assinatura do decreto de intervenção. Por enquanto, a medida inédita, decidida às pressas, está sem verba nem plano definido para enfrentar a criminalidade.
Segundo pesquisa Datafolha feita na semana passada, a intervenção tem apoio de 76% dos moradores da cidade do Rio. A maioria, porém, avalia que a ação do Exército até agora não fez diferença no combate à violência (71%).
O interventor atua como chefe das forças de segurança — prática, é responsável tanto pela Segurança Pública como pela Administração Penitenciária, com PM, Civil, bombeiros e agentes carcerários sob seu comando.

VISIBILIDADE

Nesta segunda (26), a guerra violenta entre traficantes e milicianos na zona oeste levou à interrupção do Transcarioca e teve cenas filmadas de manhã por um helicóptero da TV Globo — mostrou criminosos com fuzis em troca de tiros.
À tarde, militares do Exército iniciaram operação nas zonas sul, norte e central para reforço do patrulhamento “em áreas de grande circulação de pessoas e veículos”.
Com potencial de atrair visibilidade, a ação deve ser reforçada a partir desta terça (27), com deslocamento de efetivo para pontos turísticos de Copacabana e Botafogo.
A medida, porém, é de baixo impacto contra crimes violentos, já que essas não são as áreas mais conflagradas.
O principal exemplo da atual falta de rumo da intervenção é a favela Vila Kennedy, na zona oeste do Rio, anunciada como uma espécie de laboratório da intervenção.
A experiência durou pouco, e as Forças Armadas anunciaram que irão deixar a favela antes de conseguir capturar chefes do tráfico local ou aprender quantidade representativa de armas e drogas.
No período de um mês na região, os militares protagonizaram uma corrida de gato e rato com bandidos, que colocavam de noite as barreiras retiradas de dia pelas tropas.
A estratégia dos interventores para enfrentar os criminosos é nebulosa, mas uma das pistas é que descartam ocupar comunidades de forma permanente, como ocorreu na Maré em 2014 e 2015.
Outra promessa é reequipar as polícias do estado, mas tanto como policiais civis seguem trabalhando com armamento obsoleto e sem combustível para viaturas.
A falta de estrutura ajuda a tornar os agentes vítimas da criminalidade. Já são 31 mortos neste ano —média de um a cada três dias. Em igual período de 2017, foram 39 mortos —134 no ano todo.
Crime de maior repercussão desde que começou a intervenção, a morte da vereadora Marielle Franco () e de seu motorista, Anderson Gomes, completará duas semanas nesta quarta (28) sem resultados concretos da investigação — aqui, nada se sabe sobre os criminosos e a motivação do crime.

MODELO

Segundo a socióloga Maria Isabel Couto, pesquisadora de segurança pública do instituto , a atuação das forças repete modelo de décadas atrás, sem sucesso.
O ineditismo da medida atual, diz, é acompanhado de antigas práticas, como cerco a favelas, revistas a moradores e foco no tráfico de drogas no varejo e em regiões pobres. 
“Do ponto de vista estratégico, não é diferente do que vemos há 30 anos no Rio”, afirma. “Há um aumento da repressão e a militarização da vida cotidiana nas áreas pobres, apenas, e estão tentando resolver o problema dando o mesmo remédio que sempre deram”, completa.
Para Ignácio Cano, do Laboratório de Violência da , a intervenção não tem tempo nem condições políticas de melhorias significativas.
Ele diz ver os militares sem rumo e improvisando. O melhor que o interventor poderia fazer, diz, seria a polícia reavaliar a política de operações para tentar reduzir o número de confrontos e, consequentemente, de feridos e mortos, e aumentar o patrulhamento para inibir crimes de rua.
Cano afirma não acreditar que a solução seja tentar tomar as favelas mais conflagradas. “Se entrarem, vão ocorrer muitas mortes.”
Até agora não há estatísticas oficiais que possam medir os índices de criminalidade em meio à intervenção.
Venâncio Moura, diretor de segurança do Sindicarga (Sindicato de Transporte de Cargas do Rio), afirma que a sensação é de que os roubos de carga, importante foco da intervenção, não reduziram.
“O que vemos é que os ladrões de carga não se intimidaram com a intervenção”, disse Moura, que é coronel da reserva da PM. Ele vê as ações do Exército nas vias expressas com impacto pontual. “Os militares vão embora no fim da tarde e tudo volta outra vez.”

EM MESES

O Gabinete de Intervenção Federal afirmou, por meio de nota, que as ações seguem estratégia traçada pelo interventor e que os primeiros resultados serão sentidos nos próximos meses.
Ele disse que estão sendo implementadas ações “emergenciais e estruturantes” para reduzir “progressivamente” os índices de criminalidade e fortalecer as polícias e a moral dos policiais.
Os generais no comando da secretaria de Segurança Pública evitam dar declarações públicas. No assassinato da vereadora Marielle Franco (), optaram por se manifestar por nota.
O interventor Braga Netto falou publicamente uma vez desde que assumiu —assim como Richard Nunes, general secretário de Segurança.
Em nota, o gabinete de intervenção listou feitos da gestão e afirmou que os diversos atores das forças de segurança do Rio trabalham de forma integrada.
Ele destaca entre as medidas a “mudança de comando dos órgãos de segurança pública dentro do critério da meritocracia”, a “interlocução com diferentes segmentos dos setores públicos, privados e da sociedade civil organizada” e a “recomposição das finanças” para saldar passivos, assegurar pagamentos e investir em melhorias.
O gabinete cita também  a “criação de modelo de ações sociais para ser aplicado em comunidades”, a “recomposição de efetivos e ampliação da frota de viaturas para aumentar policiamento ostensivo” e a “mobilização e integração com forças de segurança federais e de outros estados”.
Na última terça-feira (20), fabricantes brasileiras de armas doaram 100 fuzis e 100 mil munições às forças de segurança do Rio.
Nos próximos dias, o Exército doará para a PM três veículos blindados usados na missão do Haiti. 
Dois batalhões da PM foram vistoriados pelos interventores. Os militares destacam ainda apoio a uma ação social na Vila Kennedy para tirada de documentos e assistência odontológica que fez 13 mil atendimentos.

ENTENDA A INTERVENÇÃO FEDERAL NO RIO

O que é a intervenção federal?
Um poder excepcional que permite que a União interfira nos estados em alguns casos. A intervenção está prevista na Constituição de 1988 e, desde então, essa é a primeira vez em que é usada. Na prática, no Rio, o interventor Walter Souza Braga Netto assumiu o controle da Secretaria de Segurança Pública e das polícias, mas sem estar subordinado ao governo do estado.
Qual o é o objetivo da intervenção?
Reduzir os índices de criminalidade e recuperar a estrutura e eficiência das polícias Civil e Militar do estado.
A intervenção tem um plano de ação?
Oficialmente, ele não foi apresentado. Até o momento, a intervenção fez cercos em favelas com o apoio de militares da Forças Armadas e com a polícia. Também houve vistoria em presídio e bloqueios em estradas de acesso ao Rio.
A favela da Vila Kennedy, na zona oeste, foi alçada a laboratório, com patrulhas diárias dos militares. Após um mês de operações, porém, o governo anunciou que pretende deixar a comunidade até o início de abril. 
A intervenção foi decidida às pressas pelo governo Temer?
Ao que tudo indica, sim. O interventor, depois de nomeado, levou uma semana para escolher sua equipe. 
Desde quando as Forças Armadas estão no estado?
Em 28 de junho, as Forças Armadas receberam autorização presidencial para atuar na segurança pública do Rio. O arcabouço jurídico para isso foi um decreto de (Garantia da Lei e da Ordem).
Os militares têm prazo para deixar o estado?
A intervenção irá durar até 31 de dezembro, segundo decreto do presidente Temer. Para continuar, terá de ser decretada pelo próximo presidente do país, a ser eleito neste ano.
Qual é a situação do Rio em comparação a outros estados do país?
Apesar da escalada de violência no Rio, que atingiu uma taxa de mortes violentas de 40 por 100 mil habitantes no ano passado, há estados com patamares ainda piores. No Atlas da Violência 2017, com dados até 2015, Rio tinha taxa de 30,6 homicídios para cada 100 mil habitantes, contra 58,1 de Sergipe, 52,3 de Alagoas e 46,7 do Ceará, por exemplo.
A polícia já tem pistas dos assassinos da vereadora Marielle?
A polícia ainda busca indícios do caso. Por enquanto, publicamente, sabe-se que Marielle foi seguida após participar de debate sobre racismo no dia do crime. 
Sérgio Rangel , Lucas Vettorazzo Luiza Franco

Endereço da página

  • https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2018/03/apos-40-dias-intervencao-de-temer-segue-sem-rumo-contra-a-violencia-no-rio.shtml

Cinco jovens são mortos em condomínio do 'Minha Casa, Minha Vida' em Maricá


Marco Jonathan, 17 anos, é um dos cinco mortos em Maricá
Marco Jonathan, 17 anos, é um dos cinco mortos em Maricá Foto: Divulgação/Reprodução
Cinco jovens foram mortos na madrugada de ontem em um condomínio do programa "Minha Casa, Minha Vida" em Itaipuaçu, distrito de Maricá. As vítimas foram identificadas como Sávio de Oliveira Vitipó, de 19 anos, Mateus Bitencourt da Silva, de 18 anos, e os adolescentes Patrick da Silva Diniz, Matheus Barauna dos Santos e Marco Jonathan da Silva Oliveira. As informações são da Polícia Civil.
Segundo testemunhas, os jovens conversavam em uma área de convivência do conjunto habitacional após voltarem de um show de rap no Centro da cidade, quando foram surpreendidas por homens armados. A Delegacia de Homicídios de Niterói e São Gonçalo (DHNSG) investiga o caso. A perícia foi feita no local.
— O meu filho deixou amigas em casa e veio cumprimentar alguém. Chegaram dois homens, mandaram eles deitarem no chão, deram um tiro na cabeça de cada um e saíram gritando "Aqui é milícia e vamos voltar". Uma testemunha viu tudo — contou July Mary Silva, de 34 anos, mãe de Marco Jonathan, de 17 anos.
O secretário de Direitos Humanos e Participação Popular de Maricá, João Carlos Birigu, esteve no local durante a manhã e contou que ao menos um dos jovens articulava um projeto social na área, apoiado pela pasta.
— O Sávio trabalhava em rodas de hip-hop com a gente aqui. Era uma atividade de lazer e conscientização, uma forma de trazer a juventude para a cultura. Eles mesmo articulavam e o objetivo da secretaria era dar suporte.
A mãe de Marco Jonathan, conhecido como “Do quadrado”, afirmou que o filho também participava do projeto e que os planos dos jovens era expandir as atividades.
— Tinham feito uma página no Facebook. Ele ia ser o professor de passinho e o Sávio, o DJ. Íamos exigir que as crianças tirassem notas boas na escola. O Mateus (outra vítima) também estava nesse projeto. Já tínhamos logomarca, íamos fazer uniforme... estava muito no início — falou July, que defendeu o filho. — Eu gostaria de desmentir que meu filho é bandido. Não era. Ele era usuário (de droga), mas estudante, nunca fez mal pra ninguém, nunca roubou. Há três anos, na inauguração do condomínio, ganhou o concurso do passinho. O sonho dele era ser cantor de rap. Todos eles gostavam disso.
Marco Jonathan deixou um filho de 1 ano e 4 meses, Marco Luca. O secretário João Carlos Birigu garantiu que o órgão vai dar todo o apoio para familiares dos jovens:
— Desde o primeiro momento o prefeito designou atenção total ao caso e acompanhamento às famílias. Vamos custear todas as despesas de sepultamento e enterro e, posteriormente, prestar apoio psicológico — falou.
Moradores do condomínio reclamaram, entretanto, da falta de atenção do poder público. Nas conversas, denunciavam “esculachos policiais”.
“Passaram no meu portão outro dia à noite e mandaram eu entrar. Vivem esculachando todo mundo por aqui”, contou uma idosa. Outro morador lamentou:
— O condomínio está abandonado. Quando a gente veio para cá, a prefeitura falou que não ia abandonar a gente. Mas ninguém gosta da gente aqui, falam que colocaram uma favela em Itaipuaçu e espalham mentiras. Dizem que tem tráfico, mas pode perguntar a qualquer funcionário da Prefeitura: não tem — afirmou, sem se identificar.
O morador admitiu o receio de uma dominação da área pela milícia.
— Não tem segurança, mas a gente também não quer polícia que dá tapa na cara e assusta nossas crianças. Daqui a dois anos, o condomínio vai estar na mão da milícia, a gente tendo que pagar pra eles. Já vieram, há uns três meses, dar tiro pro alto aqui. É o recado deles.

Assassinato de Marielle visa intimidar todos os que lutam pelos direitos humanos no Brasil, dizem relatores da ONU


Negra, mãe e socióloga, Marielle Franco (PSOL) atuava desde 2000 dentro das instituições da Maré, complexo de favelas do Rio de Janeiro, trabalhando com cultura e educação. Suas propostas abordavam questões de gênero, raça e cidade. Foto: Mídia Ninja (CC)
Negra, mãe e socióloga, Marielle Franco (PSOL) atuava desde 2000 dentro das instituições da Maré, complexo de favelas do Rio de Janeiro, trabalhando com cultura e educação. Suas propostas abordavam questões de gênero, raça e cidade. Foto: Mídia Ninja (CC)
Relatores da ONU disseram nesta segunda-feira (26) que consideram profundamente alarmante o assassinato da vereadora Marielle Franco, mulher negra e proeminente defensora de direitos humanos que criticou o uso da força militar no Rio de Janeiro.
Marielle Franco e seu motorista, Anderson Pedro Gomes, foram assassinados em 14 de março na zona central do Rio de Janeiro, quando retornavam do evento “Jovens Negras Movendo as Estruturas”.
A vereadora era uma crítica feroz do decreto de 16 de fevereiro, que autoriza a intervenção federal em questões de segurança pública no estado do Rio de Janeiro.
“O assassinato de Marielle é alarmante, já que ele tem o objetivo de intimidar todos aqueles que lutam por direitos humanos e pelo Estado de direito no Brasil”, disseram os relatores em comunicado conjunto.
“Pedimos às autoridades brasileiras que usem este momento trágico para revisar suas escolhas em promoção de segurança pública e, em particular, para intensificar substancialmente a proteção de defensores de direitos humanos no país.”
Como vereadora, Marielle integrava a comissão que acompanha a intervenção das Forças Armadas no Rio de Janeiro. Segundo informações recebidas pelos relatores, poucos dias antes de sua morte, Marielle denunciou o uso da força da polícia militar na favela de Acari, na zona norte da cidade.
No último fim de semana, oito pessoas morreram durante uma operação policial em uma favela no Rio de Janeiro. “Segurança pública não deve jamais ser feita às custas de direitos humanos”, afirmaram os especialistas. “Respostas repressivas que miram e marginalizam pessoas pobres e negras são inaceitáveis e contra-produtivas”.
“Pedimos às autoridades que ponham fim à violência, reafirmem publicamente o papel fundamental e legítimo das mulheres defensoras de direitos humanos e condenem a violência e a discriminação que são promovidas contra elas”, complementaram.
Os relatores pediram a realização de uma investigação rápida e imparcial dos assassinatos, ressaltando que a execução de Marielle é um sintoma assustador dos atuais níveis de violência no país.
“Marielle foi uma extraordinária defensora de direitos humanos. Ela defendeu os direitos dos negros, das populações LGBTI, das mulheres e dos jovens das favelas mais pobres do Rio. Marielle será lembrada como um símbolo de resistência para comunidades marginalizadas historicamente no Brasil”, concluíram.
O comunicado é assinado por Dubravka Šimonović, relatora especial sobre violência contra mulher, suas causas e consequências; Agnes Callamard, relatora especial sobre execuções extrajudiciais, sumárias ou arbitrárias; E. Tendayi Achiume, relatora especial sobre formas contemporâneas de racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância relacionada.
Também assinaram Michal Balcerzak, presidente do Grupo de Trabalho dos Especialistas em Pessoas de Origem Africana; Victor Madrigal-Borloz, especialista independente em proteção contra violência e discriminação baseada em orientação sexual e identidade de gênero; Alda Facio, presidente do Grupo de Trabalho sobre temas relacionados à discriminação, legal ou prática, contra a mulher.
Outros que assinaram foram Juan Pablo Bohoslavsky, especialista independente sobre os efeitos de dívida externa e outras obrigações financeiras internacionais dos Estados sobre o gozo pleno de todos os direitos humanos, particularmente direitos econômicos, sociais e culturais; Michel Forst, relator especial sobre a situação dos defensores de direitos humanos; Philip Alston, relator especial sobre pobreza extrema e direitos humanos; Leilani Farha, relatora especial sobre moradia adequada como componente do direito a um padrão de vida adequado e o direito de não discriminação nesse contexto.
Os especialistas fazem parte do que se conhece como Procedimentos Especiais do Conselho dos Direitos Humanos. Procedimentos Especiais, o maior órgão de especialistas independentes no Sistema de Direitos Humanos da ONU, é o nome geral dos mecanismos independentes de monitoramento de direitos humanos do Conselho.
Os titulares de mandato dos Procedimentos Especiais são especialistas independentes em direitos humanos nomeados pelo Conselho para abordar situações específicas de países ou questões temáticas em todas as partes do mundo. Os especialistas não são funcionários da ONU e são independentes de qualquer governo ou organização. Eles servem em sua capacidade individual e não recebem um salário por seu trabalho.

Apontadas como suspeitas pela execução de Marielle, milícias atuam no Rio sem serem incomodadas

Estima-se que atualmente cerca de 160 comunidades no Estado do Rio estejam sob o controle de grupos paramilitares. O maior deles é o chamado de Liga da Justiça, criado no final da década de 1990 por Aldemar Almeida dos Santos e Ricardo Teixeira Cruz, conhecidos pelos apelidos de Batman e Robin. Os dois estão presos.
Até o momento, a intervenção federal não incomodou os milicianos. O grosso das operações do Exército no Rio teve como foco principal áreas dominadas pelo tráfico, principalmente pelo Comando Vermelho. Prova disso é que a comunidade escolhida como balão de ensaio pelas autoridades, a Vila Kennedy, na zona oeste, era palco de disputa entre o CV e o Terceiro Comando Puro. Para o sociólogo Ignácio Cano, da Universidade Federal Fluminense, o enfrentamento feito pelo Estado contra os grupos paramilitares foi insuficiente. “As milícias são um câncer no Rio. E embora tenham provocado resposta do Estado depois de 2008, foi insuficiente”, afirma o professor. “Quando o Estado age contra o tráfico ele lança mão de uma lógica militarizada de ocupação da comunidade. Mas com relação às milícias não ocorre isso: eles investigam, podem até prender alguns, mas não tem a lógica de retomada do território”.
A falta de enfrentamento às milícias não está restrita à atual intervenção federal. A única comunidade em poder dos paramilitares que recebeu uma Unidade de Polícia Pacificadora foi o Batan, na zona oeste da cidade – uma dentre as 38 UPPs implementadas.
O combate à atividade das milícias exige estratégias diferentes das utilizadas contra o tráfico. “Para enfrentar as milícias é preciso um trabalho de inteligência para arregimentar provas e denunciar. É difícil o flagrante, uma vez que eles atuam de forma bem organizada”, diz Michel Misse, professor titular de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e fundador do Núcleo de Estudos em Cidadania, Conflito e Violência Urbana. “Infelizmente o trabalho de inteligência das polícias é um dos pontos fracos da atuação delas. Prova disso é que 90% dos presos no Brasil foram detidos em flagrante pelas Polícias Militares, ou seja, são prisões que não dependem de investigação alguma”, afirma. O combate às milícias também esbarra no corporativismo das forças de segurança, tendo em vista que muitas vezes o miliciano é colega de farda de quem deveria prendê-lo.

Gato-net e extorsão

Inicialmente os grupos milicianos surgiram no bairro de Rio das Pedras com a promessa de garantir a segurança dos moradores contra roubos e outros crimes relacionados ao tráfico de drogas. Seu boom ocorreu no início dos anos 2000, nos bairros da zona oeste do Rio e na Baixada Fluminense. Com o enfraquecimento das facções criminosas provocado pela implantação das Unidades de Polícia Pacificadora, os milicianos estenderam seus tentáculos para a zona norte e até mesmo para municípios vizinhos, como Macaé e Angra dos Reis. Sua principal fonte de renda são a venda de proteção, de serviços clandestinos de TV por assinatura (o gato-net, que custa em torno de 40 reais), botijões de gás com sobrepreço e transporte alternativo. Existem relatos de grupos paramilitares mirando também investimentos no setor imobiliário – qualquer venda ou aluguel na comunidade é taxado por eles. Na prática, afirma a pesquisadora da Universidade Estadual do Rio Alba Zaluar, “onde existe uma possibilidade de lucro os milicianos agem”. “Eles acabam controlando as associações de moradores das comunidades, o que facilita o controle sobre os serviços no bairro”, diz a professora.
Liga da Justiça, negociou a venda do ponto para os traficantes por 3 milhões de reais
A relação entre traficantes de drogas e milicianos é inicialmente marcada por conflitos nas áreas em disputa. Depois, geralmente os grupos tendem a entrar em acordo – os traficantes reticentes são mortos ou expulsos. Um caso emblemático ocorreu em agosto de 2015. O Comando Vermelho e milicianos disputavam havia cerca de um ano o controle do Morro do Jordão, em Jacarepaguá. Para colocar um ponto final no conflito, o grupo paramilitar, com apoio da Liga da Justiça, teria negociado a venda do ponto para os traficantes por 3 milhões de reais, como informou o jornal O Dia. Também existem casos de traficantes que pagam uma porcentagem do comércio de drogas para milicianos em troca da autorização para operar bocas em território controlado por paramilitares.
Além da atuação nas comunidades, uma marca dos milicianos é a tentativa de infiltrar candidatos na política, tarefa na qual os traficantes nunca conseguiram muito êxito. Desde 2007 ao menos cinco vereadores da capital fluminense e deputados estaduais já foram presos por envolvimento com os paramilitares – dentre eles Cristiano Girão, eleito vereador pelo PMN e preso em 2009, a vereadora Carminha Jerominho (PT do B), filha de Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho, vereador que também foi preso e condenado a 14 anos de prisão por seu envolvimento com a milícia do bairro Gardênia Azul.
Mas as milícias aprenderam com os erros. Se antes eram os líderes dos grupos que tomavam a frente no processo eleitoral, as prisões recentes ensinaram aos paramilitares que a melhor estratégia é ficar em segundo plano, indicando laranjas como candidatos e praticando o chamado curral eleitoral. O professor Misse aponta que “há uma afinidade ideológica entre os milicianos e alguns candidatos da extrema direita”, o que poderia fazer com que os paramilitares apoiem essas candidaturas. Os candidatos que não agradam aos milicianos podem acabar se tornando alvos: de 2015 até hoje ao menos 13 postulantes a uma vaga na Câmara municipal foram mortos, grande parte deles em áreas controladas pelos paramilitares.
Os grupos milicianos são famosos pela violência com que agem. O caso mais famoso foi o assassinato, em agosto de 2011, da juíza Patrícia Acioli. Ela foi vítima de uma emboscada quando chegava em sua casa, em Niterói. A magistrada foi alvejada com 21 tiros, e morreu no local. Ela era uma rigorosa combatente dos excessos cometidos por policiais e milicianos, tendo condenado dezenas de agentes estatais corruptos. Onze policiais ligados a grupos paramilitares foram condenados pelo assassinato de Acioli.https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/19/politica/1521481656_961928.html?id_externo_rsoc=whatsapp

Crimes como assassinatos e roubos de cargas crescem no primeiro mês de intervenção federal no Rio



Militares durante operação para retirada de contêiner da UPP Vila Kennedy, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.
Militares durante operação para retirada de contêiner da UPP Vila Kennedy, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Foto: Guilherme Pinto / 16.03.2018
Rafael Soares
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Em seu primeiro mês, a intervenção federal na segurança não reduziu a criminalidade no Rio. Levantamento do EXTRA com base em registros de ocorrências feitos em todas as delegacias da capital fluminense, entre 16 de fevereiro, quando o presidente Michel Temer assinou o decreto de intervenção, e 16 de março revela que os homicídios, roubos de carros e roubos de cargas aumentaram em relação ao mesmo período de 2017.
O crime com maior crescimento foi o roubo de veículos. Neste ano foram registrados 1.954 casos na cidade do Rio contra 1.632 no mesmo período do ano passado: um aumento de 19%. Já o roubo de cargas subiu 12%: 317 crimes neste ano e 281 em 2017.
Os homicídios tiveram um aumento menor, de 1,8%: 111 casos em 2017 e 113 este ano. Do total de 2018, 81 vítimas (71%) foram mortas por tiros.
O bairro com mais assassinatos desde o início da intervenção foi justamente o local com mais ações das Forças Armadas no período: Bangu, onde dez casos foram registrados. Ao todo, a 34ª DP (Bangu) registrou 12 mortes — além dos crimes em Bangu, houve dois no bairro vizinho de Padre Miguel. A unidade é a que mais registrou crimes desse tipo no período.
O EXTRA escolheu esses três indicadores porque, entre fevereiro e março do ano passado, a Polícia Civil estava em greve e as delegacias só registravam crimes mais graves. Portanto, indicadores de homicídios e de roubos de carros e de cargas não sofreram distorções.
Quando o primeiro mês de intervenção é comparado com o período imediatamente anterior (18 de janeiro a 15 de fevereiro), roubos de cargas e homicídios aumentaram 3% e 6%. Já roubos de veículos caem 8%: de 2.103 para 1.954.
O único indicador que caiu drasticamente é o de homicídios decorrentes de oposição à intervenção policial, os autos de resistência. Foram 27 casos no primeiro mês de intervenção contra 49 no mesmo período do ano passado e 51 entre 18 de janeiro e 15 de fevereiro.

Família de morto na Rocinha denuncia que PMs 'chegaram atirando durante baile funk'


Matheus, de 19 anos, é um dos sete mortos durante troca de tiros entre PMs e bandidos na Rocinha
Matheus, de 19 anos, é um dos sete mortos durante troca de tiros entre PMs e bandidos na Rocinha Foto: Reprodução
RIO - Familiares de Matheus da Silva Duarte, de 19 anos, um dos oito mortos após ação do Batalhão de Choque (BPChoque) na Rocinha na manhã deste sábado, denunciam que os policiais chegaram atirando contra frequentadores de um baile funk na localidade da Roupa Suja. Márcio Duarte de Oliveira, de 45 anos, pai de Matheus, negou que ele fosse bandido, e falou que os agentes deram tapas e bateram em moradores que estavam no evento, por volta das 5h50m.
- Meu filho era inocente, ele não tem nenhum envolvimento com tráfico. Tem que ter justiça - disse o cobrador de van que mora na Rocinha.
Segundo familiares, Matheus estava procurando emprego. Ele morava com a avó paterna na localidade da Fundação, e foi morto com um tiro nas costas pelos policiais.
- Meu filho foi morto com um tiro de fuzil pelas costas. Isso não existe. Tem que acabar. Eu tenho consciência de que PM tem família, mas os policiais não têm essa consicência de que morador de favela também tem família - disse a mãe de Matheus, que não quis se identificar.
Júlio Morais de Lima, outro morto na ação da PM neste sábado
Júlio Morais de Lima, outro morto na ação da PM neste sábado Foto: Reprodução
Outro morto na ação foi o auxiliar de serviços gerais Júlio Morais de Lima, de 23 anos. Familiares, que preferiram não se identificar, contaram que ele foi atingido no horário que costumava sair para trabalhar.
- Ele trabalhava numa churrascaria. Começou a trabalhar lá ano passado. Eu estava saindo de casa quando um amigo disse que ele tinha sido baleado. Vim pro hospital, mas ele já estava morto. Ele era trabalhador, não era vagabundo. Todo dia tem tiroteio e ele foi mais uma vítima do que acontece na comunidade. Júlio era trabalhador e vou correr atrás para provar isso - disse o familiar, que não soube dizer se o rapaz estava saindo para trabalhar ou se estava saindo do baile funk.
MORADORA VIU AÇÃO
Uma moradora que não quis se identificar viu quando PMs arrastaram os corpos das vítimas para dentro da viatura. Ela disse que é comum moradores sem envolvimento com o tráfico serem abordados de forma truculenta pelos agentes.
- O baile (na quadra da localidade Roupa Suja) tinha acabado e a molecada estava conversando. De repente, os PMs saÍram do túnel pulando do carro e já atirando com o carro em movimento. Os meninos se assustaram e saíram correndo. Todo dia eles batem nos moleques. Batem na cara, acham que todo mundo é bandido. Em vez de averiguarem, pedir documentos, já saem batendo, ameaçam com faca ou arma. Não é todo mundo que mora na favela que é bandido. Meu filho de 16 anos saiu para comprar pão e levou um tapa na cara - contou.
Pelo menos oito pessoas morreram durante um tiroteio entre policiais e criminosos na favela. De acordo com a Polícia Militar, os baleados chegaram a ser socorridos e levados para o Hospital Miguel Couto, mas não resistiram. O caso está sendo investigado pela Divisão de Homicídios. O Grupamento Aeromóvel (GAM) realiza monitoramento aéreo e o cerco na região foi reforçado.
Segundo a PM, o confronto teve início quando agentes do Choque foram atacados na Rua 2 e na Roupa Suja. Fforam apreendidos um fuzil, seis pistolas e duas granadas. Pelo menos uma pessoa foi presa. A PM está em ação continuada na comunidade da Rocinha desde setembro de 2017.

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